Não quero saber que mais para os arrabaldes conseguiria uma casa maior e com aspirador central, eu que nem sei ligar uma máquina de lavar a roupa e que sou bem capaz de sair à minha irmã mais nova que se escondeu no carro a meio da noite com o marido porque a dita tecnologia tem vontade própria e eles achavam que tal barulho era prenuncio de uma explosão iminente.
Não quero saber de Talaíde ou da urbanização nova do Outeiro de Polima que são sítios que nada me dizem e um T2 é coisa para ser demasiado grande para mim que não preciso de um escritório porque trabalhar é coisa para se fazer de computador ao colo, cinzeiro empoleirado nos braços do cadeirão e caneca de café equilibrada com mestria na ponta de uma estante.
Não quero saber porque da minha janela vejo até onde os olhos conseguem alcançar e a luz verde do Bugio faz-me companhia nas noites frias.
Não quero saber de estar emparedada entre quatro prédios, de ver a vizinha na marquise e ter o conforto de um aquecimento central. Quero embrulhar-me num monte de mantas ao Domingo de manhã enquanto me sento à mesa estremunhada com um café acabado de fazer na minha máquina de balão do tempo da outra senhora e não ter medo que a vizinha da frente estique o braço e pela janela me roube as torradas a pingar manteiga.
E não quero nem saber.
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