segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O sono dos justos

Em tempos tive uma avó. Não era uma avozinha daquelas fofinhas e de avental, nem daquelas em forma de bola, com ares de velhinha doce. Mas era muito minha. Era uma avó que calçava keds de cunha e que se auto-intitulava Mrs Magoo.

E a minha avó tinha um problema de sono (aqui para nós que ninguém nos ouve). Mas estava convencida que não. O que a minha avó tinha mesmo era um problema de vizinhança. Independentemente dos ditos vizinhos terem mudado cerca de 5 vezes. Eles passavam mensagem entre eles.

A verdade é que a minha avó ressonava. A verdade verdadeira é que ressonava tanto que se acordava a ela própria no sobressalto de quem dorme o sono dos justos e é acordada por um bombardeamento. Mas para a minha avó, a única verdade é que ela ressonava e os vizinhos batiam nas paredes meias para que parasse.

Queixou-se de tal facto, de tais vizinhos pouco condescendentes, durante cerca de uma década. Até que decidiu tomar medidas. O que é o mesmo que dizer que foi buscar as cornetas dos seus carnavais de juventude. E aguardou. Assim, a meio da noite, depois de adormecer, quando os ditos vizinhos “bateram na parede” foi vê-la a entrar dentro do roupeiro munida de uma mão cheia de cornetas e apitar como se não houvesse amanhã. É que se ela não dorme, eles também não!

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